A cegueira segundo Julián Fuks

Entrevista publicada no dia 24 de agosto de 2011 no Diario de Pernambuco.

Foto: Daniela Nader

Paulo Carvalho

Seguir um caminho que é o da literatura, e não o dos autores, ele mesmo limite entre o ver e o falar. Autor do bem recebido Histórias de literatura e cegueira – Borges, João Cabral e Joyce, o escritor, crítico e tradutor paulistano Julián Fuks é o que se pode chamar de antibiógrafo: apetece-lhe o falseamento, a reinserção no espaço literário de passagens como as vividas/imaginadas pelos escritores deste seu título mais conhecido. Convidado do Festival Recifense de Literatura, Fuks participa hoje, às 17h, na Livraria Cultura, da mesa Memórias das coisas que não vivi. Em debate, entre outros temas, a paixão por Jorge Luis Borges, João Cabral de Melo Neto e James Joyce, prefigurados em sua narrativa segundo as marcas profundamente literárias da cegueira, do sonho, do esquecimento e, claro, da memória.

Como apresentação, não seria equivocado afirmar que escrevendo Fuks entrega-se ao fascínio da ausência de tempo – tempo ausente, mas não puramente negativo. Antes disso, sem negação, sem decisão, tempo agenciado a “aquis” de lugares nenhuns (Buenos Aires, Recife, Dublin…), e “eus” reconhecidos “na neutralidade de um ‘ele’ sem rosto” (quem é o cego, afinal, em suas histórias?). Trata-se, portanto, este seu Histórias de literatura e cegueira, de um memorialismo, que não deixa de ser estranho por servir-se de um meio – a escrita – que é em si o próprio elemento do esquecimento. Ainda sobre o tempo da narrativa, poder-se-ia dizer, que o seu “sem presente” (ou de presente, sem presença) não proporciona liberdade ao passado: não estão aqui apresentadas lembranças de João Cabral, Borges ou Joyce aptas a tornarem-se atuais através do texto e, portanto, capazes de se tornarem objeto de conhecimento.

Poder-se-ia sugerir que se tratam de passagens sem fim, sem começo, sem futuro, presas em um labirinto puramente exterior (inapreensível e irrenunciável): “isso jamais aconteceu, jamais houve uma primeira vez; e não obstante, isso recomeça, de novo, e de novo”. Em outras palavras, histórias/imagens de cegueira presas onde nada começa, nada se torna presente, nada tem uma primeira vez, já que o futuro está separado do passado por um presente-vazio, não verdadeiro, não-real, de movimento imóvel e de fundo sem profundidade, tal pode parecer o amarelo tigre de Bengala da cegueira borgeana.

A noite conta ainda com conversa entre o homenageado Marco Polo e o professor da Universidade Federal de Pernambuco, Paulo Marcondes, às 19h.

Entrevista >> Julián Fuks

“Fiz imersão no universo de cada autor”

Histórias de literatura e cegueira sempre me pareceu interessante porque não é apenas um “plano de voo” sobre a vida de cada um dos autores. A própria estrutura da narrativa espelha certo co-habitar de tempos, certa hesitação – digamos assim rapidamente – bergsoniana da memória. Como você chegou a essa escrita “fora do tempo”?

É uma leitura muito interessante a que você propõe. Há mesmo no livro certa simultaneidade de tempos, um emaranhamento de instantes presentes e pretéritos. Talvez isso se deva ao fato de eu ter começado por Borges, tomando de empréstimo sua concepção de memória labiríntica, ou da própria existência como labirinto. Para escrever cada parte, realizei um processo intenso de imersão no universo de cada um dos autores retratados, lendo sua obra, conhecendo biografias e depoimentos sobre sua vida, algo da fortuna crítica disponível. Fazia uma trajetória pela literatura deles tendo como eixo sempre a cegueira, mas atento a outros aspectos recorrentes, suas obsessões, seus pensamentos mais frequentes.

Fale-me um pouco como chegou à cegueira enquanto ponto de conjunção e lente de aproximação para os trabalhos desses escritores.

Curiosa escolha de palavras, a cegueira como lente. Com efeito, a cegueira foi a lente que escolhi para vasculhar a existência desses autores, para conhecê-los na intimidade que me era acessível, que me era pertinente. Entre as primeiras coisas que soube sobre Borges constava sua cegueira tão clarividente, a vastidão de seus pensamentos mesmo na desaparição do mundo aparente. Entre as primeiras coisas que soube sobre João Cabral constava sua tragédia pessoal, o terror que o acometeu quando perdeu a vista. Desse contraste incompreensível, dessa enigmática diferença, foi que nasceu a ideia do livro.

 Certamente “conhecer” o Recife ou a Espanha não é fundamental no exercício imaginativo do seu livro, certo?

Estive no Recife antes, mas não me atreveria a dizer que o conheço. O Sertão e a Zona da Mata vi apenas em fotos e filmes. Conhecer o lugar de que se narra ou, mais, habitá-lo imageticamente me parece fundamental para qualquer narrativa mais séria, mas o caso é que neste livro me utilizei de um subterfúgio. Minha própria imaginação, minha capacidade de descrever paisagens ou construir cenários, valia menos que a imaginação dos meus personagens. Não me interessava Recife ou Dublin, interessava-me o Recife de João Cabral, a Dublin de Joyce. Cada um deles me oferecia um arsenal imenso de imagens para alicerçar minhas histórias.

Pergunto isso porque  penso que quanto menos se conhece a vida de um autor mais rico se torna seu trabalho. Nesse sentido, vê o seu livro como um falseamento de dados biográficos?

Acho que há uma contradição interna em meu livro. A um só tempo, ele reverencia o elemento biográfico e o trai, empenhando-se em malversá-lo. Nesse sentido poderia sim ser concebido como um falseamento de dados, mas vale ressaltar que a entrada do elemento ficcional nunca se deu de modo arbitrário, com a mera intenção de deturpar uma história documentada. Apelei à ficção sempre que os documentos falhavam.

É um leitor de biografias? O que achou de Borges, uma vida (Companhia das Letras), de Edwin Williamson?

Não leio biografias como passatempo, costumo rejeitar sua transparência, sua ambição de verdade, mas leio quando são úteis ao meu trabalho de escritor e de crítico. Não li a biografia de Williamson, não posso comentá-la, mas o que posso dizer é que a grande repercussão do livro se deveu em parte a uma falácia: de que antes não existiam biografias meticulosas e exaustivas de Borges. Como seria de se imaginar, a vida e a obra de Borges contam com grandes estudiosos na Argentina. Posso estar enganado, mas creio que a atenção dada a Williamson é mais um dos efeitos do valor excessivo que atribuímos às produções em língua inglesa, e da necessidade de validação externa que imputamos a nossas próprias culturas.

Você finalizou um novo livro?

Lanço em novembro Procura do romance, um projeto a que me dediquei ao longo dos últimos cinco anos. É em parte sobre literatura, fruto de leituras que tenho feito sobre a impossibilidade de narrar e a morte do romance. Trata, em letras mínimas, de um escritor em crise cavilando possibilidades narrativas, tentando inutilmente escapar da aporia, do impasse a que foi relegado por sua história pessoal.

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Sobre microgramas

Paulo Carvalho, jornalista no Recife. Atualmente escrevo sobre literatura para o Diario de Pernambuco e colaboro eventualmente para o Suplemento Pernambuco. Este blog é o meu mal de arquivo: resenhas, colunas e matérias escritas para veículos impressos. Espero que seja útil para vocês também.
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